
Ela de sua boca de cereja e de asa,
Torcendo-se assim como a cobra numa brasa,
E os seios a moldar à dura barbatana
Do espartilho, falou impregnada de havana:
- "Trago os lábios molhados e possuo a ciência
De perder por um leito a minha consciência.
Eu seco todo choro em meus seios divinos,
E faço rir os velhos tal qual os meninos.
Eu substituo, aos que possam ver-me sem véus,
O plenilúnio, o Sol, as estrelas e os céus!
Eu sou tão douta na volúpia, caros sábios,
Quando um homem afogo no mar dos meus lábios,
Ou então quando entrego às mordidas meu busto,
Tímido e libertino e frágil e robusto,
Que os anjos sobre o meu desmaiado colchão
Iriam ter em mim sua danação ".
Quando ela me sorveu dos ossos a medula,
E tão languidamente a buscou minha gula,
Viu o beijo de amor que nela pus afinal,
Flanco viscoso de odre a transbordar de pus!
Meus dois olhos fechei, num susto de fobia,
Depois quando os abri à viva luz do dia,
Junto a mim, em lugar do manequim tão langue,
Que ali estava estuar da provisão de sangue,
Tremeu de um esqueleto à visão tão daninha,
Ainda a emitir os sons de distante ventoinha
Ou de triste varão que prende a tabuleta
Que oscila ao vento pela noite fria e preta.
Charles Baudelaire ( 1821 - 1867 )
1 comentários:
Olhar sempre para frente e sentir a autorização do Outro em começarmos um amor, uma vida afetiva, onde cada um viverá as suas grandes fatias de uma compreensão e de um esforço para a realização de uma entrega...
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